terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Fusão


A forma humana, ressalvadas as alterações próprias da idade, conserva o seu tipo, apesar do afluxo incessante de matéria que passa pelo corpo. Destarte, assemelha-se a uma rede, entre cujas malhas se insinuam as moléculas. Esse retículo fluídico contém, igualmente, as leis do mecanismo vital, e fica estável através do turbilhão das ações físico-químicas, que destroem e reconstroem, incessantemente, o edifício orgânico.

Compõe-se, portanto, o ser humano de três elementos distintos: a alma com o seu perispírito, a força vital e a matéria

A força vital representa aqui um duplo papel: dá ao Protoplasma( é a parte viva da célula. É um sistema físico-químico de natureza coloidal e pode passar facilmente do estado sólido ao liquido. Os principais constituintes químicos do protoplasma são as proteínas (ácidos aminados, polipeptídeos etc.), os carboidratos, os lipídios, as substâncias minerais e a água. O protoplasma é uma substância viva que tem a propriedade da assimilação e sofre suas conseqüências (crescimento, divisão etc.). O protoplasma reage aos excitantes mecânicos, físicos e químicos; pode emitir pseudópodes e sofre atrações e repulsões)suas propriedades gerais, e ao perispírito o grau de materialidade necessária para que ele possa manifestar as leis que oculta, enfim, fazendo-as passar da virtualidade ao ato.

A grande autoridade de Claude Bernard, a quem consultamos muitas vezes, vem, ainda neste ponto, confirmar a nossa forma de ver. Eis como ele se exprime em seu livro - Investigações sobre os problemas da Fisiologia:

"Há - diz - como que um desenho vital, que traça o plano de cada ser e de cada órgão; de sorte que, considerado isoladamente, cada fenômeno orgânico é tributário das forças gerais da natureza, a revelarem como que um laço especial, parecendo dirigidos por alguma condição invisível na rota que perseguem, na ordem que as encadeia.

Assim é que as ações químico-sintéticas da organização e da nutrição se manifestam como se fossem animadas por uma força impulsiva governando a matéria; fazendo uma química apropriada a um fim, e pondo em jogo, os reativos cegos dos laboratórios, à maneira dos próprios químicos.

É essa potência de evolução, imanente no óvulo, que nos limitamos a enunciar aqui, que constituiria, só por si, o quid próprio da vida; pois é claro que essa propriedade do ovo, a produzir um mamífero, uma ave, ou um peixe, não é nem física, nem química."

A vida resulta, portanto, evidentemente da união da força vital com o perispírito, dando aquela a vida, propriamente dita, e este as leis orgânicas, concorrendo a alma com a vida psíquica.

Destes três fatores, só um é sempre e por toda parte idêntico - a vida. O Espírito, transitando pela matéria vivente, desde as primitivas eras do mundo, conseguiu, a transformação progressiva e aperfeiçoada. Cremos seja ele o agente de evolução das formas orgânicas e, daí, a razão do perispírito, conservando-lhe as leis.

Havemos de ver de que modo um movimento, voluntário de início, pode tornar-se habitual, maquinal, e, por fim, automático e inconsciente... Este o lado fisiológico. A mesma coisa ocorre com as manifestações intelectuais, dado o paralelismo das duas evoluções. É difícil, em primeiro lugar, representarmos uma matéria fluídica, invisível, imponderável, agindo sobre a matéria, para ordená-la mediante leis; nada obstante, podemos encontrar analogias que permitem fazer uma idéia, assaz aproximada, dessa espécie de ação.


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